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O que há por trás do mercado bilionário de abates de jumentos na Bahia
Com a carne e pele do jumento demandadas pela China, a espécie ficou sob risco real de extinção
Domingo, 11 de Outubro de 2026

Ela é considerada rica em proteínas e baixa em teor de gordura. Há décadas, já se falava sobre o quanto a carne de jumento nordestino era magra, fibrosa, cujo sabor era forte e marcante. Da utilização do animal para transporte de cargas ao prato, há séculos, era o jumento que fortalecia a economia nordestina.


Atualmente, a carne do jumento encontra um bilionário mercado de oportunidades na China e em regiões do Mediterrâneo europeu. A iguaria é tão cobiçada que já chegou a virar carne de hambúrguer e até recheio para empanadas.


Ela é considerada rica em proteínas e baixa em teor de gordura. Há décadas, já se falava sobre o quanto a carne de jumento nordestino era magra, fibrosa, cujo sabor era forte e marcante. Da utilização do animal para transporte de cargas ao prato, há séculos, era o jumento que fortalecia a economia nordestina.


Atualmente, a carne do jumento encontra um bilionário mercado de oportunidades na China e em regiões do Mediterrâneo europeu. A iguaria é tão cobiçada que já chegou a virar carne de hambúrguer e até recheio para empanadas.


Ela é considerada rica em proteínas e baixa em teor de gordura. Há décadas, já se falava sobre o quanto a carne de jumento nordestino era magra, fibrosa, cujo sabor era forte e marcante. Da utilização do animal para transporte de cargas ao prato, há séculos, era o jumento que fortalecia a economia nordestina.


Atualmente, a carne do jumento encontra um bilionário mercado de oportunidades na China e em regiões do Mediterrâneo europeu. A iguaria é tão cobiçada que já chegou a virar carne de hambúrguer e até recheio para empanadas.


Uma carta escrita por pesquisadores apontam que a contribuição da indústria para as exportações brasileiras é insignificante (menos de 0,000003% do total), e os municípios que são sede de abatedouros de jumentos, como Amargosa (BA), não apresentaram crescimento econômico nem aumento na arrecadação de impostos durante o período de operação.


Jumento não tem cadeia produtiva


Os especialistas são incisivos: não existe cadeia produtiva no abate de asininos. Um dos pontos está ligado ao tempo de gestação e o custo de produção desses animais. A gestação dura em torno de 12 meses e cada animal precisa viver por dois a três anos até atingir o peso de abate, o que eleva o custo de produção para cerca de R$ 2 mil – muito acima do valor de mercado de um jumento nordestino, que não costuma ultrapassar R$ 180.


“É muito demorado, e lógico que quanto mais se demora, haverá mais custo para alimentar, medicar, do espaço que ocupa e assim por diante”, continuou o doutor em economia aplicada pela USP.


Outro ponto está ligado à falta de apoio para fortalecimento do setor. Diferentemente da China que concede subsídio às fazendas chinesas de produção de jumentos, o setor não recebe incentivos para a produção.


“Se o Brasil pensar em abastecer a indústria para a exportação de pele, só vai ser viável se o governo der incentivos. E aí a gente cai no outro problema: além de não ter dinheiro para isso, não há custo-benefício. “O ganho que você tem para o país em exportação não vale a pena investir, é mais interessante o governo investir em outros produtos, educação, saúde, diante da limitação orçamento do governo”, continuou o especialista.


José Roberto Lima complementa e ratifica que, ao contrário do que acontece na China, a produção de jumentos no Brasil tem custo ínfimo, e o valor agregado não chega a um valor significativo para o país, apenas quando o animal se torna produto de exportação.


“Vamos supor que a pele de um jumento se transforme em um tablete de 1 kg de ejiao e que um jumento está saindo por R$ 100 do Nordeste. Ele vai estar valendo talvez 500 ou 1.000 dólares, no preço de um tablete. Não fica praticamente valor nenhum no Brasil e não há nenhum gasto para manter essa cadeia. É um sistema que só funciona porque é extravista e tem uma série de ilegalidades porque não se tem GTA (Guia de Trânsito Animal), não tem saúde veterinária, não se tem nada”, finalizou o professor.


Mas se é inviável, por que o Brasil não proibe o abate?


De acordo com José Roberto Lima, apesar de o mercado não ser economicamente viável, a China continua sendo um importante parceiro comercial do Brasil.


"Você não tá lidando com um consumidor qualquer. É a China. O valor de exportação dos produtos é algo totalmente insignificante comparado com as outras exportações do agronegócio, mas os governantes não querem contrariar o interesse chinês. Tem toda uma questão geopolítica e política envolvida", explica o especialista.


A Justiça da Bahia já barrou algumas vezes o mercado de abates da espécie por um tempo, não somente pelo risco da extinção do jumento, mas pela forma inadequada do processo que acontecia na Bahia, como aconteceu em 2018. Mas especialistas apontam que as previsões para esse cenário podem acabar por outra razão.


"O cenário [de abates de jumentos] vai parar quando não tiver mais estoque e isso já está prestes a acontecer", finalizou ele.


Abates de jumentos: uma questão sanitária


A cadeia  produtiva da carne bovina no Brasil é tão robusta que costuma ser dividida em três grandes segmentos: antes da porteira, dentro da porteira e depois da porteira. Além de ter recursos consolidados na área da genética e reprodução, nutrição e saúde animal, os bovinos contam a com uma série de exigências que fortalecem o mercado de abate e a exportação do produto para o mercado internacional.


Com o jumento, isso não acontece. Especialistas ouvidos pelo Portal A TARDE explicam que jumentos, muitas vezes abandonados, costumam ser comprados na mão de pequenos produtores ou são capturados em beira de estradas, em condições insalubres de saúde. Não se tem histórico nenhum de rastreabilidade do animal.


Outra questão alarmante está relacionada ao cenário sanitário do animal. Em março de 2020, a Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB) publicou uma portaria que dispensava exames médicos em asininos transportados diretamente para o abate, principalmente análises ligadas ao Mormo e Anemia Infecciosa Equina (AIE).


“Uma das enfermidades mais preocupantes é o mormo, que é uma doença altamente letal para humanos, se não for tratado adequadamente. Nesse processo de abate do jumento quem está mais propenso a pegar essa doença são as pessoas que lidam diretamente com o animal. Temos casos humanos confirmados, e só achamos mais porque não se procura pela doença, já que não está inclusa no sistema de vigilância epidemiológica’, explica o professor.


A falta de monitoramento sanitário e de rastreabilidade do animal, portanto, acendem alerta no meio científico e de saúde pública. Estudos apontam que a falta dessa assistência contribui para a portabilidade de várias zoonoses, doenças que passam para humanos com risco de morte.


“Os jumentos têm várias enfermidades que têm significado para a saúde pública e que poderiam ser impeditivas ao abate desses animais. A gente tem que se preocupar porque, entre outros fatores, o Brasil tem uma reputação enorme a defender. O Brasil é o maior exportador de carne bovina e de carne de frango, e uma das maiores potências do agronegócio do planeta. Se a carne ou o ejiao de um desses desses jumentos chega a causar problemas confirmados nos consumidores internacionais, diante de uma contaminação por patógenos ou até por resíduos químicos, é um risco à economia do país”, continua ele.


Da redução à extinção


Especialistas apontam que, a média de abates nos primeiros anos, era de cerca de 20.000 animais por ano e esse volume começou a aumentar nos anos seguintes, até que, em 2019 o abate foi interrompido. Quatro anos depois, entretanto, a proibição foi derrubada, e na Bahia, surgiram três frigoríficos.


O professor José de Andrade acredita que existem mais de 200 mil jumentos atualmente - uma queda de 71,4% da população da espécie no Brasil de 2016 a 2026. Há pesquisas do IBGE que apontam uma redução de até 94% da população de jumentos no Brasil. Os dados são imprecisos, afinal, não há projeções sendo realizadas oficialmente sobre esses animais há cerca de 20 anos.


O cenário fica ainda mais preocupante diante de uma possível exaustão da população de jumentos. Ainda de acordo com os especialistas, a expectativa é de que restem apenas 50 mil animais, até que haja uma possível extinção da espécie.


“Um dos sinais disso é que, entre os três frigoríficos existentes na Bahia, dois já fecharam e apenas um está conseguindo manter uma rotina porque certamente já não se tem volumes de jumento localizados no interior do Nordeste para essa manutenção. Acredito que no máximo um a dois anos, o terceiro frigorífico também terá condição de sustentar abate semanal e provavelmente vão parar de fazer o abate”, continuou ele.


Perda de um dos maiores patrimônios do Nordeste


Popular por ser parte do coração do Nordeste, o jumento foi considerado essencial na construção da história do Brasil. Devido à sua alta resistência ao clima sertanejo, fruto de cinco séculos de evolução, a espécie esteve presente na transportação de cargas e até chegou a virar parte da família nordestina.


Por muitos anos, entidades tentaram incluir o jumento na lista de patrimônios imateriais e culturais do Nordeste e um recurso genético brasileiro que precisa ser conservado. Isso, entretanto, fica ainda mais longe de ser alcançado.


“Vamos chegar a um ponto de redução tão drástica de que nós vamos ter dificuldade de garantir o patrimônio genético. Mesmo que se pare o abate, os jumentos vão continuar morrendo por causa da idade e caso não haja reprodução. A perda desse patrimônio genético que poderia ser uma das alternativas, inclusive, para a convivência com as mudanças climáticas, com as secas que vão aumentar, e com as desertificação de algumas regiões do Brasil”, explicou José Roberto Lima.


De acordo com a zootecnista e médica veterinária, Chiara Albano, por muito tempo, o abate dos jumentos acontece de forma desorganizada, o que motivou a perda de uma variabilidade genética do animal, considerada uma "riqueza" para a área de conservação de recursos genéticos.


“Atualmente, temos um problema de abandono de animais, o que impacta na diminuição da força animal no campo e aumenta riscos sanitários através de disseminação de doenças. Quando se abate de forma desorganizada, de machos e fêmeas, de uma quantidade grande de animais jovens, a gente perde a riqueza da variabilidade genética, a gente perde conhecimento desses animais que estão aqui há 500 anos”, explica a doutora em Ciência Animal.


Um fio de esperança


Entidade de preservação e proteção animal acreditam que a forma mais eficaz para converter a extinção dos jumentos é encerrar o abate dos animais, preservando a sua importância na agricultura e nordestinos.


Pesquisadores do Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) conseguiram descobrir uma alternativa para esse cenário: a produção de colágeno através da fermentação de precisão, um processo biotecnológico que utiliza microrganismos geneticamente modificados para gerar proteínas de forma ética e controlada, sem a exploração animal.


O processo, que pode gerar os primeiros resultados até o final do ano, consiste na inserção do gene do colágeno em um microorganismo que passa a funcionar como uma verdadeira "fábrica biológica" para a produção do ejiao.


Enquanto os resultados não chegam, entidades e pesquisadores continuam trabalhando para trazer visibilidade ao debate quanto à economia, a insalubridade no abate, os riscos por trás dessa inadequação, e principalmente sobre o eminente risco de perda de uma das maiores figuras nordestinas: o jumento.


 

 

FONTE: atarde.com.br  
 
 

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