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Com dupla derrota de ACM Neto, prefeitura de Salvador vira a última trincheira do carlismo
Grupo político mais longevo da Bahia perde terreno para o PT no interior, vê vantagem encolher na capital em meio a desgastes e aposta a sobrevivência na eleição de 2028
Quinta-Feira, 29 de Outubro de 2026

Enquanto os olhos do eleitor estavam exclusivamente voltados para o desfecho do duelo de nervos travado entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), outro efeito direto da sucessão presidencial deste ano aparecia no campo de visão apenas dos radares mais atentos: a possibilidade real de que o carlismo, o mais longevo polo de poder no estado, esteja nos últimos passos de uma dança na qual ocupa o palco principal da política baiana há pelo menos cinco décadas, mas agora depende exclusivamente do oxigênio de Salvador para evitar a asfixia. rnância de candidaturas.


Panorama é o oposto do passado


O contraste com o carlismo é expressivo. Durante décadas, Antônio Carlos Magalhães construiu uma estrutura de poder que combinava influência sobre o governo estadual, forte presença no Congresso, controle partidário e capacidade de articulação com Brasília. O grupo não se limitava a administrar a Bahia e dominar centenas de cidades no interior: projetava lideranças nacionalmente e mantinha ingerência sobre decisões políticas muito além das fronteiras estaduais. ACM Neto herdou parte desse capital, mas não conseguiu convertê-lo em vitória para o Palácio de Ondina. 


A primeira grande rachadura dessa estrutura ocorreu justamente em 2006. Naquele ano, Jaques Wagner derrotou o então governador Paulo Souto e encerrou 16 anos de supremacia do PFL no estado. A vitória petista marcou o início de uma mudança profunda na geografia política baiana, avançando inclusive sobre antigos redutos carlistas. O resultado abriu caminho para a fragmentação do grupo e para a perda progressiva de sua capacidade de comando sobre a política estadual.


Nos anos seguintes, a reorganização partidária nacional acelerou a dispersão de antigas lideranças do PFL, rebatizado de Democratas em 2007. A criação do PSD, em 2011, ofereceu novo destino a uma parcela importante dos quadros políticos que haviam orbitado o antigo partido. O carlismo não desapareceu, mas perdeu a unidade e a dimensão estadual que o haviam transformado em força dominante. ACM Neto tentou reconstruir esse protagonismo, inclusive com a projeção nacional alcançada à frente do DEM, mas a derrota de 2022 e a repetição do revés em 2026 reduziram o espaço para essa ambição.


Capital como último abrigo


Salvador permanece como a principal fortaleza eleitoral do grupo. ACM Neto venceu Jerônimo na capital em 2026, com 769.752 votos, contra 630.677 do governador. A diferença, porém, caiu para cerca de 139 mil votos, ante aproximadamente 236 mil no primeiro turno de 2022 e mais de 470 mil no segundo turno daquele ano. A redução é significativa porque ocorre na cidade onde Neto foi prefeito por dois mandatos, sempre com altos índices de aprovação, e onde Bruno Reis, seu aliado e sucessor, conquistou uma vitória expressiva na eleição municipal de 2024. 


É nesse cenário que 2028 já começa a aparecer no para-brisa da política baiana. A sucessão de Bruno Reis será mais do que uma disputa pela prefeitura: funcionará como um teste para medir a capacidade que o carlismo tem de preservar seu último grande centro de poder e, a partir dele, tentar reorganizar a oposição estadual. Uma derrota na capital reduziria ainda mais o espaço de articulação do grupo; uma vitória, por outro lado, manteria aberta a possibilidade de reconstrução.


Custos do apoio a Flávio Bolsonaro 


Há ainda outro obstáculo grande no caminho do carlismo rumo à sobrevivência: a vitória de Lula com apoio robusto do eleitorado da Bahia, um dos seus grandes redutos. ACM Neto tentou manter a disputa pelo governo da Bahia distante da polarização nacional. Declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD), mas sem grande entusiasmo, para preservar o voto Lula-Neto. No calor da derrota para Jerônimo Rodrigues, mudou o discurso: disse que seria preciso mudar primeiro o Brasil para depois mudar a Bahia.  


Na sequência, anunciou apoio a Flávio Bolsonaro, numa espécie de tudo ou nada. A mudança de postura repercutiu mal entre eleitores que votaram nele para governador e em Lula para presidente, apostando no distanciamento do ex-prefeito em relação ao bolsonarismo. No fim, se sentiram enganados. 


Sem conseguir eleger seu candidato à Presidência da República, saiu duplamente derrotado e corre o risco de perder parte da base que lhe permitia transitar além da direita ideológica. O desgaste pode se tornar um problema em 2028, quando a sucessão de Bruno Reis colocará à prova a capacidade do grupo de conservar Salvador. 

 

FONTE: www.trbn.com.br  
 
 

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